Roberto Moreno



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BRASIL, Sudeste, Visconde de Mauá, Homem, de 36 a 45 anos, Portuguese, Spanish, Livros, Informática e Internet
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    140 Letras

    Está rolando o 140 Letras, concurso literário de microcontos no Twitter. Total apoio do Sebo do Bac.
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    Escrito por  Roberto Moreno às 12h08
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    Eu já, eu nunca

    Repeteco de um dos posts de maior sucesso deste blog, em versão atualizada.

    Eu já andei pelado na praia, tive rádio pirata, craqueei senhas, invadi sistemas, sobrevivi a terremoto, larguei o emprego e fui morar no mato, já esqueci o caminho de casa, viajei 24 horas de ônibus, viajei sete horas a cavalo, matei passarinho com espingarda e comi o passarinho, brinquei na neve, nadei em lagoa, rio e mar, vi fantasmas, vi duendes, chutei gatos, dormi em show do Ivan Lins, fui vendedor de sapatos, pizzaiolo, bancário e executivo, fui magro, voei de teco-teco, "furei lona" de circo, tive dois Fiat 147, comi caviar, subi em pirâmide, namorei três ao mesmo tempo, dormi no trabalho por não ter dinheiro pra voltar pra casa, vi a marquinha da Sheila Mello, ganhei medalhas, prêmios, concursos e rifas, produzi filme pornô gay, cantei com Milionário e Zé Rico, comprei carro usado de mágico, toquei violão no metrô, discuti a existência de Deus com padre e com pastor, militei em partido político, vi jogo da seleção em estádio lotado, montei touro mecânico, joguei moedinha na fonte de Trevi, dei choque no meu irmão, fui protestado, tomei tarja-preta, li livro de cabeçaa pra baixo no metrô, subi escada rolante descendo, atirei aviãozinho de papel do alto do prédio, colecionei pilhas usadas, colecionei sapos, criei rã, publiquei zines, fui convidado do bate-papo, fui papai noel de escola infantil, fiz discurso, dei aula, dei palestra, carreguei marmita, dei cheque sem fundo, formatei o hd da empresa, soneguei imposto, anulei voto, justifiquei voto na cidade vizinha, fiz boca-de-urna, dei curto na energia elétrica do bairro, soltei bombinha em trem, incendiei cafezal, chorei no cinema, sai do teatro sem saber se a peça tinha acabado, pedi autógrafo pra jogador de basquete, chamei o Pena Branca de Xavantinho, dei beijinho no rosto da Roberta Close, usei telex, máquina de escrever e icq, dei aula sem conhecer o assunto, comi até passar mal, usei gravata com desenho do Mickey, usei gravata estampada com paletó xadrez, montei estande na Fenasoft, pintei o cabelo de roxo, atravessei a rua sem óculos, fugi do escritório para tomar banho de piscina, fugi do escritório para ver show, fugi do escritório para fazer bolha de sabão, queimei computadores e aparelhos eletrônicos diversos, coloquei index de site de sambista na raiz do portal, criei perfil falso no orkut, morei em hotel, morei em bordel, passei em concurso público, quebrei os dentes na manivela do poço, tive branco durante uma aula e precisei dispensar os alunos, desfilei na Tiradentes em 7 de Setembro, esqueci encontro com a namorada, andei de charrete e jet ski, vesti camisa ao contrário, vesti meias de pés trocados, esqueci diploma no táxi, cantei música japonesa em karaokê da Liberdade, atravessei piscina sem respirar, acertei dardo nas costas do gato, peguei carrapato, tive pânico, pedra nos rins e enxaqueca, tomei choque na praia, li pensamentos, adivinhei o futuro, apareci na televisão, ouvi Fagner no último volume, comi sabonete, tomei banho de café no avião, briguei com bêbado que jogou latinha na cachoeira, comi açúcar de colher, deixei chefe chato falando sozinho, acenei para o Papa na rua, fingi dormir para não dar lugar pra velhinha no ônibus, li jornal do vizinho, desmontei e montei radinho de pilha, fiz careta para criancinha, ofusquei desconhecidos com reflexo de relógio, coloquei sal no café, coloquei sal-de-fruta na Coca-Cola, joguei sal em lesma, andei de guarda-chuva em noite sem chuva e abasteci o carro com álcool de limpeza. Também já tive infarto, fui envenenado, trabalhei 36 horas ininterruptas, fui vítima de hacker, atuei em teatro, escrevi livro, pulei na piscina de roupa, mergulhei em alto-mar, ganhei campeonato de telejogo, mandei o prefeito trabalhar e chamei o Saramago de plagiador.

    Eu nunca roubei, nunca matei, nunca fumei cigarro, nunca fumei baseado nem cheirei pó nem lambi ácido, nunca surfei, nunca tirei habilitação, nunca consegui amarrar cordão de sapato, nunca comi frango com a mão, nunca vi disco voador, nunca li auto-ajuda, nunca voei de helicóptero, nunca viajei de primeira classe, nunca colei em prova, nunca bati em alguém, nunca pirateei vídeo de locadora, nunca repeti de ano na escola, nunca comi cebola intencionalmente, nunca fui demitido de emprego, nunca quebrei um braço nem pé nem dedo, nunca soltei rojão, nunca comi pizza com katchup.

    E eu ainda vou saltar de pára-quedas, brincar na gravidade zero, sair na rua de pijama, filmar um longa, tocar violoncelo, dominar o mundo e transformar cada um desses "eu já" num conto.


    Escrito por  Roberto Moreno às 01h14
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    xerox de e-mail

    Não se iluda com a carinha sorridente da foto aí de cima. Sou anti-social. Gosto de pouquíssimas pessoas. Com outras, me limito ao convívio profissional. Sofro de preconceito intelectual agudo.

    E daí?

    E daí que, pelo exposto, evito andar em público. Não vou a festas, bares e confraternizações. Não vou a lojas, shoppings ou restaurantes. Tudo o que preciso consigo através da web. Por ela peço o jantar, as compras do mês, livros e as bugigangas eletrônicas que me divertem.

    O problema é quando os sites são burros. Aí o preconceito é maior. Exemplo do dia: precisava comprar um presente. Óbvio, escolhi e pesquisei preços pela web. Encontrei o produto adequado à pessoa e com preço bom numa loja que não conhecia.

    Por garantia, resolvi esclarecer tudo pelo atendimento por chat. Disponibilidade? OK. Prazo? 1 dia. Pagamento? Cartão. Ótimo. Fechei o pedido.

    Primeiro enrosco: o e-mail de confirmação do pedido dizia que a entrega aconteceria em dois dias.

    De volta ao chat, reclamei, e me disseram que era quase certeza que chegaria em 1 dia. Ai, ai, ai.

    Combinei unilateralmente que, se não chegasse em 1 dia, eu cancelaria a compra e correria até a loja mais próxima (ai, ai, ai) para comprar o tal presente.

    OK. OK? Não OK.

    No formulário de pedido, o preenchimento de telefone era obrigatório. Não tenho telefone. Não uso telefone. Odeio telefone. Coloquei o número do celular que uso para me conectar à internet quando estou na rua. Rejeitado. O número deve ser fixo. Tomei uma dose dupla de paciência e coloquei o telefone do escritório. Só não xinguei mentalmente porque detesto palavrões, mesmo os imaginários.

    Chegando ao escritório, vejo que o telefone tem cinco chamadas não atendidas. Dane-se. Aí chega um e-mail: não conseguiram confirmar o cadastro por telefone e vão cancelar a compra.

    De volta ao chat.

    Bem, nesse ponto você já percebeu que o preço estava muuuuuito bom, né?

    Sim, era preciso confirmar os dados por telefone por se tratar de compra com cartão de crédito. Argumentei que as Americanas, o Submarino, a Som Livre, a Livraria Cultura e tantos outros nunca pediram isso nesses meus doze anos de vida digital. Bem, o preço estava muito bom. O atendente do chat disse que eu poderia ligar para confirmar o cadastro. Ai, ai, ai. Dose tripla. Liguei. A telefonista não sabia do que se tratava. Passou para o Valdemar. O Valdemar não sabia do que se tratava. Com o telefone na orelha e o dedo no chat, juntei as informações de dois caras que, provavelmente, estavam na mesma sala. O Valdemar, então, disse que estava tudo certo. O cara do chat disse que se o Valdemar disse que estava tudo certo, estava tudo certo. Então vou receber a mercadoria em 1 dia? Sim, vai receber. Ótimo.

    Minutos depois, chega outro e-mail. Por não terem conseguido falar comigo no telefone informado, o pedido foi cancelado.

    Olha, me desculpe a grosseria, mas só não mando tomar no cu porque detesto palavrões.

    Mas digo aqui o nome da maldita loja, à guisa de praga: etronics.



    Update:
    "Prezado Cliente : Seu Pedido #xxxxxx foi aprovado.
    Estaremos dando sequencia em seu pedido."


    Ai, ai, ai.


    Escrito por  Roberto Moreno às 21h36
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    Blecaute

    Ah, então é o dia do artista de teatro! Muito bem, muito bom, não tenho nada com isso, longe disso, mas taí uma gente que curto. Boa parte dos meus amigos e a totalidade de minha prole estão metidos na coisa. Para falar deles, em homenagem à classe na data, arrisco um roteiro que coloca em cena algumas de suas figuras mais destacadas, destacadamente na direção. Ai, ai, ai, que brincadeira perigosa. Tomara que eles estejam de bom humor ao ler este post. Merda pra eles. Quebrem a perna!



    Toca o terceiro sinal

    Blecaute

    Lentamente, foco de luz ilumina o centro do palco. Geraldo e Celso estão no escuro, um de cada lado do foco

    GERALDO: Luz! Venha a mim!

    CELSO: Luz! Venha a mim!

    GERALDO: Estou aqui, luz! Siga-me!

    CELSO: Ignore os apelos desse outro e venha a mim!

    Foco de luz se divide em dois e avança sobre Geraldo e Celso. Centro do palco fica escuro.

    GERALDO (se dirigindo a Celso): Quem é você?

    CELSO (olhando para Geraldo): Eu é que pergunto! De onde saiste, maldito fantasma?

    OFF: Eu sou o maior intelectual do Brasil.

    GERALDO: Quem disse isso?

    CELSO: Quem você acha que é?

    OFF: Meu nome é Paulo Coelho. Little Rabbit, para os íntimos.

    CELSO: Você pode se considerar o maior intelectual do Brasil, mas não se esqueça de que EU SOU O BRASIL! EU SOU O POVO BRASILEIRO!

    GERALDO (irônico): Vocês são uns merdas. Maior intelectual do Brasil? Pois bem! Eu sou o maior intelectual VIVO do mundo.

    RODOLPHO (cruzando o palco e agitando os braços): Gente, calma! Que é isso! Este trabalho tem que ser uma criação coletiva!!!! Parem já com essas picuinhas!

    Blecaute

    CELSO: Ei! Quem apagou a luz?

    GERALDO: Acendam a luz! Eu tenho medo de escuro!

    OFF: Eu sou a luz. Vou e volto quando bem entendo.

    GERALDO: Porra! Paulo Coelho de novo!?!

    CELSO: Vai e vem? Quem é você desta vez? O público?

    OFF: Eu sou a luz! O caminho! A Verdade! A vida!

    GERALDO E CELSO: Porra! É Deus!

    OFF: Ha ha ha ha! Então, agora acreditam? Agora sabem que existe alguém maior do que vocês?

    GERALDO: Não, não pode ser. A última vez que ouvi Deus foi em... em... 1984, eu estava indo de London para Nova York, não, estava indo do Rio de Janeiro para Hamburgo, foi num avião da Swiss, a aeromoça era lindíssima, mas o serviço era péssimo, estávamos numa turbulência quando o comandante falou... não, não, não era o comandante, era Deus, ele falou: "Geraldo, toma um Rivotril!". Mais tarde, quando o avião pousou, fomos tomar um café no Starbucks. Eu e Deus? Não, eu e a aeromoça.

    CELSO: Que mané Deus! Deus está na terra, no solo, na água, nas moléculas! Deus é o povo que anda de ônibus, que sofre oprimido nas filas dos bancos. Deus é o Brasil, Deus é celular que toca na platéia no meio do espetáculo, é a tosse daquele velho chato. Deus é Caetano pelado! Deus está nu andando a cavalo na praça! Deus é o terrível duque Russo! Deus é Picasso com suas camisas listradas e calças folgadas! Eu comi Picasso com fritas!

    RODOLPHO (cruzando o palco, reclama em direção à cabine da técnica): Gente, quem apagou essa luz, hein? Birigüi, foi você? Pára de brincadeira, menino! Acende já esse canhão e bota uma gelatina verde no centro do palco.

    Acendem-se três focos de luz verde no palco, sobre Geraldo, Celso e Rodolpho

    OFF: Pô Rodolfo, desculpa aí. Foi idéia da Taís.

    Blecaute


    Escrito por  Roberto Moreno às 11h44
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