O cara vivia com o macacão sujo. Para mudar isso, trabalhou, batalhou, gritou, brigou, conversou, fez acordos e chegou ao principal posto de comando do país. Agora, vive com o macacão sujo.
Conforme combinado, conto mais um capítulo da novela Aeiou, a nova operadora de telefonia celular em SP.
Na terça-feira recebi um e-mail dizendo que o chip está a caminho. Ontem o chip já aparecia registrado no site. O prazo de validade dos créditos promocionais de R$ 35, que seria até 8 de setembro, foi extinto. O chip ainda não chegou.
Timothy Leary, defensor e divulgador do LSD nos anos 1960, dizia que os jovens do futuro (futuro dele, nosso presente), não precisariam usar "drogas", pois teriam a Internet à disposição.
Aparentemente, o único elo entre o ácido dos cogumelos e a Internet, nessa visão, seria a busca pelo novo, o rompimento de barreiras, atitude inconformista típica da adolescência, em qualquer idade.
Mas a transferência imaginada por Leary vai além, envolvendo fuga da realidade e ansiedade, passando pela busca do prazer e do conforto. No fundo, o uso de qualquer instrumento afastador da realidade é uma tentativa de conforto, do conforto próprio, do se sentir bem com a própria estranheza diante da homogenia de milhões de estranhezas que formam essa realidade.
A fuga da realidade atrelada à ansiedade, busca do prazer e conforto, necessidade de todos, causa o sucesso de bobagens como o Twitter.
Há os que fumam, bebem, usam ácido, estimulantes físicos, dançam; há os mais ansiosos, que misturam tudo, alguns fumam, outros bebem, outros usam ácido, e há a ansiedade da informação.
Há quem adore receber spam, pela satisfação de receber muitas mensagens, de se sentir importante, e também há quem adore receber spam para satisfazer a ansiedade de ver chegar uma mensagem nova a todo momento, uma informação nova, por mais inútil que seja.
Quatro anos atrás foi o Orkut. Agora é o Twitter, daqui a duas horas será o Blip. Cinco minutos depois...
Entre tantas formas de aplacamento da ansiedade, existem as legais e as ilegais. Defendo que ilegais deveriam ser as que prejudicam terceiros. Sou contra qualquer tipo de proibição, mas entendo que é necessário algum controle sobre gente sem noção, que insiste em fumar - qualquer coisa - na presença de outras pessoas, de beber antes de dirigir, de falar ao celular no ônibus ou de usar perfume em restaurante, atitudes que interferem diretamente na vida alheia. Sim, defendo multa para quem usa perfume em restaurante ou usa celular no ônibus. Se for Nextel, dois dias de trabalhos comunitários.
Da mesma forma, defendo que não haja qualquer tipo de controle do poder público, apenas bom senso individual, sobre o uso privado de qualquer droga, seja ela maconha, cocaína, uísque, Orkut, Twitter, tabaco, música, celular, LSD, pornografia, literatura, ecstasy, telenovelas ou qualquer outro produto alienante.
Afinal, realidade em tempo integral, é inviável, é uma droga. Uma forma segura de fuga é ficar teclando F5 pra ver se chegou uma mensagem nova ou se, finalmente, os passarinhos conseguiram içar a baleia.
Eu tenho inveja dos mocinhos da Avenida de ombros largos e elegância nos quadris Roupa lavada, casa limpa e até comida Tudo de graça, ó que gente tão feliz!
Infelizmente eu trabalho muito!
Conheço um cara que tem sorte até comendo Freqüenta um "china" bem ali na rua Sete Um dia desses, vejam só, caso estupendo! Achou um relógio na barriga de um croquete!
Infelizmente eu almoço em casa!
Eu quando vejo um baile de alta-sociedade Lindas casacas, toaletes formidáveis de terno-saco dou uma volta na cidade Tomo uma média, vão-se os níqueis miseráveis
Infelizmente sou da classe-média!
Se me apresentam uma menina espevitada que bebe e fuma e dança o fox-trot blue finjo que entendo e afinal não entendo nada Envergonhado, cabisbaixo, jururu!