Ontem fui até o sétimo andar para acompanhar a gravação com Anthony Bourdain. Como ninguém da equipe fala francês, e o convidado aprendeu um pouco de espanhol com um irmão uruguaio, me chamaram para dar uma força na comunicação. Mas nem foi preciso: o cara não falou com ninguém. Só trocou algumas palavras em inglês com sua assistente, sempre baixinho. Para nosotros, brasucas, só olhava com um sorrisinho de enfado. Enquanto Malerba e Edu se esforçavam para ajeitar numa mesa os ingredientes que seriam preparados por ele, monsieur Bourdain continuava com o sorrisinho, como se dissesse: "deixa de qualquer jeito, vai ficar uma porcaria, mesmo". Para passar o tempo, fui zapear no monitor que fica na sala da Manu, por onde ela controla tudo o que acontece nos estúdios. Virei alguns canais e parei um pouco numa cena exótica: um grupo de anões orientais dançava uma música animada, alguma coisa folclórica. Todos vestiam túnicas vermelhas cheias de detalhes em dourado. Continuei virando os canais e cheguei novamente aos anões dançarinos. A música continuava a mesma, mas agora vestiam outra roupa - túnicas beges brilhantes, com detalhes dourados e vermelhos. Nesse momento acordei revoltado. A troco de que meu cérebro fica desperdiçando neurônios em composições tão estrambóticas? Os anões asiáticos poderiam, pelo menos, ter usado um traje só.
Já leu os contos da Ivana? Leia. Enquanto a maioria dos autores escreve pá-pum, Ivana escreve pá-pam! E agora, no primeiro romance, extrapolou: fez uma história pra lá de pá e cheia de pans!
De sete dias, criou um mundo. Da gênese relatada em memórias ao futuro imaginado de Renata, "Hotel Novo Mundo" mostra, como diria Balu a Mogli, o necessário, somente o necessário.
História de vidas, numa daquelas interseções do acaso, focada num momento de viradas. Um break na timeline que cria outra timeline, justificando o não-dito: toda mudança é boa, ainda que para pior. E que gostoso ler e ver a coisa toda se passando aqui na esquina, lugares reais, situações reais e pensamentos reais, tudojunto formando ficção.
"E quando a dona de casa foge pra São Paulo num domingo à noite, entre um intervalo e outro do Fantástico, o que acontece com a casa? Nada? Nada."
Livro bom de ser decupado, mas muito melhor de ser lido. Li ontem, em poucas horas. Assim que acabei, tentei começar um Philip Roth comprado no mesmo dia, mas não deu: muito pá para um dia pam. Recomeço amanhã.